A Confraria do Desejo Indomável

Fragmentos para uma sociedade secreta libertina e libertária

I. Contra a domesticação

A sociedade nos ensina a desejar sob vigilância. Primeiro, inventa os pecados; depois, vende as absolvições. Chamam isso de civilização.

Nós preferimos a heresia.

O erotismo é uma insurreição contra a administração dos corpos, uma conspiração dos sentidos contra a polícia dos costumes. Reivindicamos o luxo de não precisar ser respeitáveis.

Sade nos ensinou a suspeitar da virtude quando ela se apresenta como natureza. Nós acrescentamos: também é preciso suspeitar do libertino quando ele se apresenta como senhor.

II. Da sociedade secreta

Existimos sem nos anunciar. Nossa sociedade é conhecida apenas por seus integrantes. Não procuramos adeptos, não fazemos propaganda de nossa existência, não desejamos reconhecimento público. O segredo é a condição de existência da confraria.

Há experiências que empobrecem quando expostas à curiosidade alheia. Há palavras que só podem ser pronunciadas diante de quem sabe guardá-las. E há prazeres cuja liberdade depende precisamente de não terem de se explicar ao mundo.

Entre nós, o segredo será confiança e cumplicidade. O que nos foi confiado permanece guardado. A discrição é a primeira forma de inteligência erótica.

III. Do desejo

O desejo escapa à vontade como um funcionário insubordinado e resiste à domesticação como um animal arisco. Ele nos surpreende, desmente, desloca. Às vezes, deseja o que ontem recusava; outras vezes, abandona aquilo que jurávamos indispensável.

Queremos preservar essa instabilidade.

Recusamos fazer do erotismo uma religião, porque até os deuses acabam exigindo obediência; uma mercadoria, porque o mercado transforma até a transgressão em catálogo; uma técnica de satisfação, pois há desejos que florescem melhor na promessa do que no cumprimento.

IV. Da liberdade e seus abismos

A liberdade de desejar não é o direito de possuir o outro. Nenhum corpo é território conquistado; nenhuma intimidade, uma propriedade adquirida por sedução.

A insubmissão torna a ética mais exigente, pois já não podemos transferir a responsabilidade para Deus, para a lei moral ou para as convenções. O consentimento reconhece que a liberdade alheia não está à nossa disposição.

Queremos abolir a obediência como destino e preservá-la como jogo.

V. Do prazer de desobedecer

Toda hierarquia tem uma fraqueza secreta: depende de que alguém a leve a sério.

Entre nós, o poder poderá subir ao palco para ser desmascarado, invertido, parodiado e eroticamente encenado. Experimentaremos jogos de dominação e submissão, rituais BDSM, máscaras de autoridade, obediências fictícias e pequenas revoluções da intimidade. A senhora poderá ajoelhar-se; o servo poderá dirigir a cena; a ordem poderá tornar-se convite, e a rebelião, uma forma de sedução.

Para experimentar o quanto há de contingente nas posições que a sociedade apresenta como naturais.

A submissão escolhida difere da servidão, como a dominação consentida da soberania.O jogo só permanece livre enquanto seus participantes podem interrompê-lo.

Estabeleceremos limites para transgredi-los ludicamente. A palavra de interrupção será mais poderosa que qualquer personagem. Nenhum título, máscara ou encenação sobreviverá à retirada do consentimento.

Talvez a experiência mais subversiva seja descobrir que o poder pode proporcionar prazer sem adquirir o direito de perpetuar-se.

VI. Da confissão e do segredo

A sociedade exige confissões para classificar os sujeitos. Pergunta o que somos, a quem desejamos, que nome damos às nossas práticas. Depois, arquiva as respostas e nos devolve uma identidade.

Nós preferimos a conversa à confissão, a confidência ao interrogatório, a multiplicidade ao diagnóstico definitivo.

Compartilharemos fantasias, relatos, descobertas, leituras e segredos para ampliar aquilo que cada um pode imaginar sobre si e sobre os outros.

Pertencer dispensa qualquer revelação. O mistério é o espaço que deixamos para que o desejo continue a trabalhar.

VII. Da chama

Não queremos consumir todos os desejos. Queremos impedir que se extingam sob o peso da rotina.

Cultivaremos a literatura, a provocação, as conversas noturnas, os jogos de linguagem, as fantasias compartilhadas e o prazer de não saber antecipadamente onde uma ideia poderá nos conduzir. A sedução também é uma arte do intervalo.

A imaginação, território maior que o mundo, dispensa a conversão obrigatória de cada possibilidade em experiência.

O erotismo começa onde a identidade deixa de ser destino. Talvez sejamos mais livres quando já não precisamos ser coerentes com aquilo que desejávamos ontem.

VIII. Do pacto

Não nos reunimos para fundar uma nova moral, mas para conspirar contra a necessidade de uma moral única.

Seremos discretos sem sermos cúmplices da violência; transgressores sem sermos tiranos; libertinos sem transformar o prazer em obrigação. Não exigiremos uniformidade de desejos, fidelidade a uma doutrina ou demonstrações públicas de irreverência.

Nossa confraria será um espaço de experimentação, não uma máquina de fabricar identidades.

Que o segredo proteja a intimidade. Que o poder possa ser encenado e ridicularizado. Que o desejo conserve o direito de mudar de direção. Que ninguém seja obrigado a acompanhar o outro até o fim de uma fantasia.

E que permaneça entre nós aquilo que o mundo não precisa conhecer.

Não queremos libertar o desejo para submetê-lo a uma nova disciplina. Queremos que ele continue capaz de nos desobedecer.

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