O grande segredo é quando já não se tem mais nada a esconder.
Deleuze
Ela chegou justo quando os últimos raios de sol partiam no horizonte. Vestia um traje florido, leve e solto, calçava tênis brancos, de solado baixo. Sua silhueta, de curvas suaves e decididas, lembrava a fluidez de uma onda prestes a quebrar — firme, mas cheia de movimento. Os quadris, amplos e serenos, sustentavam a dança silenciosa de sua forma, em contraste com os ângulos retos de minhas estantes de livros. Ficamos calados por um instante, apenas nos fitando na penumbra da sala. A distância dissolveu-se em dois sorrisos cúmplices e maliciosos. Nos beijamos em um abraço longo e terno. Levei-a para cima. Ela se deteve na luneta entre os meus vasos de cactos San Pedro na sacada, o olhar perdido na iridescência crepuscular, como quem mede o abismo. A vista dava para o rio Cachoeira, com barcos aportados na margem oposta.
Essa cena, disse ela, a fizera lembrar O Demônio da Vertigem e como a história do penetra, deslizante em uma cadeia de sentidos, a deixara molhada. Aproveitei a deixa: minhas mãos encontraram sua bunda redonda e dura, apertando com uma força que era uma pergunta e uma resposta. Ela permitiu; virou-se para a rua enquanto eu lhe subia lentamente o vestido, até encontrar sua pele nua. Meus dedos dançavam; nossas respirações aceleravam em um crescente. Penetrei o espaço entre suas ancas douradas pelo sol; ávido, sedento. De repente, ela se afastou e sussurrou que, desta vez, tomaria minha alma — não apenas o corpo, como antes. Era a dona da situação. Tinha razão: um frio na barriga me acompanhara desde sua chegada. Raras vezes eu cruzara esse limiar onde o controle se dissolve no desejo do outro. Quase nunca! Mas ali, vulnerável e fascinado pelo abismo espelhado em seus olhos, aceitava a aposta arriscada que ela exigia havia tempos: queria-me nu, algemado, exposto a prazeres ainda inconfessos. Já lhe dera o coração; faltava o resto.
Um arrepio cortou minha espinha enquanto me despia e me deixava algemar de bruços e de braços erguidos. Conheça as cordas… Seguiu-se um suspense longo, até que ela se deitou sobre mim, inteiramente nua. Seus mamilos eriçados roçavam minhas costas; os lábios de sua buceta escorregavam melados pelas minhas coxas. Ah, suas unhas… riscando meus ombros. Um beijo aveludado na nuca. Quanta suavidade, quanta malícia contida aflora dessa boca de lábios cheios. Língua quente e molhada em volúpia. Deslizou com a saliva e as unhas pelas minhas costas. Ao chegar à minha bunda, cravou-as fundo na carne. Nunca estivera tão entregue. Lambeu-me com voracidade, abriu-me sem hesitar e esfregou a ponta da língua no meu cu. Anilingus. Algo certa vez confessado e logo apagado. Carícia quente, molhada, indecentemente gostosa. Ela siriricava o grelo enquanto brincava incansável com sua língua. Sinestesias gregas…

Depois, virou-me de frente, ainda algemado. Esfregou seus lábios e seu clitóris no meu peito, subindo lentamente até sentar-se em meu rosto. O mel de sua buceta obliterava minha visão — um véu âmbar e salgado. Ser engolido assim era uma montanha-russa de afecções. Ela abria-se como uma tangerina partida, expondo a polpa mais suculenta ao meu paladar. Seus gostos me impregnaram. Que noite lisérgica era essa? O tempo se dilatava em espiral, mil e uma noites condensadas em deleites sensoriais. O sabor da vida não sentem senão os loucos.
— Eu seria o mesmo amanhã?
Ela desceu do meu rosto e foi montar a minha pica, uma Lilith loira que adora estar por cima. Não reclamei. Era gostoso demais ver, no vai e vem dos seus quadris, meu sexo aparecer e desaparecer na fenda entre seus lábios tesudos enquanto observava suas expressões de prazer. Seria ela o meu súcubo?
Não me aguentei, murmurei:
— Amor…
Ela acelerou a cavalgada, o rosto voltado para o teto. Sentia a fricção cada vez mais ardente de meu pau dentro dela; estava tão molhada e vibrante. Selvagem e livre, uma deusa pagã. Subitamente, refreou seu vai e vem e jogou com força seu quadril contra a minha virilha, para me ter inteiro dentro de si. Então cravou as unhas em meu peito. Gritei de dor! E, nesse instante, ela gemeu e gozou longamente… Não me espanto de amar-te; me espanto, isto sim, de ainda reconhecer o meu corpo, depois de você. Minutos depois, já deitada ao meu lado, soltou minhas algemas. Lá fora, uma chuva torrencial irrompeu; e eu, um Rocky Balboa redivivo, agarrei seu quadril e a coloquei de joelhos, cabelos esparramados no travesseiro. Que tesão vê-la assim: em arco de lua sobre a cama, curvada num suspiro só — a sua beleza mais obscena entregue ao meu olhar como uma oferenda sem altar. Ela percebeu a minha luxúria contemplativa e, em um gesto rápido e felino, abriu suas deliciosas ancas com as mãos para me incitar ainda mais… Ah, aquela bunda que sempre provocava minha imaginação mais maliciosa.
Não tive dúvidas. Penetrei-a por trás, impetuoso. Puxei-lhe os longos cabelos enquanto ia fundo, mais fundo dentro da mulher que me trespassara o coração. Ela sussurrou algo. Era bom ter o domínio, mesmo que breve. À força das minhas investidas, ela se deixou cair de bruços. Seus dedos encontraram meu orifício: a cada investida minha, uma resposta dela. Dor e lascívia entrelaçavam-se em sincronia. O suor lustrava nossos corpos em frenesi. E ela, envolta naquele brilho, ficava ainda mais eletrizante — suas curvas escorregadias, a pele lustrosa, eram uma escultura viva moldada em desejo e loucura. Gozei quase sem fôlego, vertendo meu leite no rabo dela — um jato bruto! Ela rebolou gostoso, e seu músculo se contraiu em espasmos antes de relaxar. Fizemos mais coisas. Minha língua roçando seu grelo, meu indicador no seu cuzinho; sua boca na minha glande rosada, um voraz canibalismo de fluidos. Você quer mais uma vez e por incontáveis vezes? Sim! Coisas inconfessáveis!
Foi aí que perdi os sentidos. Dormir pro dia nascer feliz.
— Essa noite você teve medo de mim! — ouvi, já no limiar do sono.
Em sonhos estranhos, os fantasmas dos três Natais me visitaram. Entretanto, foi o espectro do passado, com seu corpo translúcido, esguio e delicado, com sua cabeça que irradiava luz que me advertiu:
— Teu medo da morte só te fez mais solitário.
Acordei — ou ainda dentro de outro sonho? — em um acampamento à beira-mar. Enter the hot dream. Come with us. Ela repousava num saco de dormir. Awake. Shake dreams from your hair.
— É dia de São Valentim e você me acompanha até nos sonhos — disse eu.
Ela me olhou:
— Eu te amo.
No horizonte uma tormenta gigantesca se aproximava. Ao fundo desta, monstruosos seres polvo, com uma miríade de tentáculos, de corpos borrachudos e escamosos se ergueram das águas profundas do oceano. Cthuluceno? O horror da emergência climática. Nos demos as mãos e corremos pela orla. Só quem tece fortes vínculos terá algum futuro. A vast radiant beach and cooled jeweled moon. Couples naked race down by it’s quiet side. O tempo urge. I could sleep for a thousand years. A thousand dreams that would awake me.
Acordei bruscamente, assustado. A luz do sol já invadira o quarto; demorei a entender onde estava — ou quando. Ao fundo, o som da água do chuveiro: era ela. Minha pele ardia. A dor descia do peito às costas, até a bunda. Então a lembrança da entrega radical na noite e madrugada sacudiu minha consciência recém-desperta. De repente, levantei e me vi no espelho. Outro susto: meu corpo nu, a pele sulcada no peito, nas costas, descendo… Cada marca, um hieróglifo de prazer e dor, ardia com uma intensidade febril. O rosto melado, um brilho no olhar para lá de infamiliar. Caí desfalecido na cama — sem forças, sem equilíbrio. Lembrei que meu sêmen se esgotara durante a madrugada, mas o sexo permanecera incólume, ainda tomado pelo tesão voraz e intermitente. O som do chuveiro cessou. Passos descalços aproximavam-se. Meu coração disparou como o de um jovem apaixonado.