Morte e vida no final do expediente

Eu tô suando frio (talvez seja o ar condicionado). Vim apressado pra cá carregando essa papelada toda, lá fora tá um calor danado, um sol de rachar a cuca. Já aqui dentro faz frio… bom, talvez eu esteja febril, ou esteja suando de nervosismo. É cruel ter toda tua vida, teu ganha-pão dependendo de funcionários cinzentos. Se eles encontrarem algo errado em qualquer desses meus documentos, vou ter que ralar pra poder comer proteínas todo dia e ter um teto sem goteira pra dormir. Como é frio aqui, ou talvez seja só impressão minha. É psicológico. Essas paredes e divisórias brancas e acinzentadas lembram o interior de um freezer. Tá certo que tem uma plantinha aqui, outra ali, mas no geral esse ambiente causa arrepios. Funcionários impassíveis e inertes em frente aos computadores. Para eles é trabalho de rotina, para quem está do outro lado, é questão de vida. Cruel! Ainda falta um monte de pessoas para eu ser atendido, minha senha é de número 406 e está na 391. O pior não é a espera, o pior é a incerteza. Será que minha papelada tá em ordem? Essa gente é cheia de firulas. Se tiver uma vírgula a menos, uma palavrinha fora de lugar eu tô pior que cachorro sem dono! Por que a vida não é mais simples? Por que tantos números? Tantos registros? Tá certo, talvez eu esteja sendo infantil. Se eu fosse mais organizado, mais atento a detalhes burocráticos, se cuidasse melhor de mim mesmo, não estaria com o coração na mão agora. Olhando por esse ângulo, os funcionários é que estão certos, não são frios e indiferentes, são racionais e crescidos. Devem estar acostumados a atenderem pessoas trêmulas e confusas como eu. Devem estar de saco cheio na verdade, querendo ir logo pra casa tomar um banho e se atirar no sofá, na cama ou na rede. Deitar e ver um bom filme do século passado. O tempo se arrasta aqui, quisera ele passasse mais devagar quando eu tô curtindo um livro de ficção cyberpunk ou lendo Sandman. Eu bem que podia ter trazido umas HQs do Gaiman ou do Mutarelli ou então do Ellis pra ler enquanto espero meu destino ser definido aqui… mas o cara lembra-se disso nessas horas de aflição cruel? Chato esperar assim: mero espectador de seus pensamentos aflitivos.

Hmmm. Aquela meia-calça preta cai muito bem nas pernas dessa atendente. Pernas esbeltas, coxas grossas e firmes, salto alto discreto. Saia justa com um pequeno corte na lateral, pernas cruzadas, um blazer cinza escuro de executiva. Dá pra vislumbrar um decote, ela deve tá usando um tomara que caia… Um par de seios generosos! Óculos de grau e cabelos ruivos presos, batom discreto e unhas compridas com esmalte preto. Toda essa seriedade levemente contrastada por pulseiras prateadas, anéis e brincos de aro, além dos seios generosos. Ela tem um ar de eficácia executiva, talvez workaholic? Odeio workaholics! Mas posso abrir uma exceção. Essa mulher é gostosa demais. Posso conceder uma licença e suspender minhas opiniões no caso dela. Seria por uma causa justa, 394! Faltam 13, não… 12. Ai, ai. Nada como uma boa distração para os olhos, só assim esqueço minha situação. Putz! Não posso esquecer-me de entregar os livros na biblioteca, a multa por dia de atraso tá absurdamente alta! E os calhordas dão só uma semana de empréstimo, como é que o cara vai ler 600 páginas em uma semana? Se tivesse só isso pra fazer, vá lá, mas…

Ela levantou. Sua saia é muito justa, deixa o desenho do quadril perfeitamente visível. Ela se move de um jeito que demonstra poder… ela sabe que é gostosa, mas finge que não sabe. Perfeita! A beleza das curvas faz a diferença… Niemeyer sabia das coisas! Bom, talvez ela seja um pouco fria (Deve ser o ar condicionado). Quem sabe fora do expediente seja mais calorosa. Se fosse loira, seria uma das musas do velho Fausto Fawcett tamanha é sua presença nesse lugar. Ela caminha para os fundos. Isso já é demais. Que bunda! Gilberto Freyre acertou em cheio. Por mais ascético que seja esse ambiente, mais high tech, frio e etéreo, a herança de casa-grande e senzala ainda vigora no sangue e na imaginação. Se bem que no aqui e agora não sou eu o senhor do engenho. Aqui eu sou um escravo quase fodido. Hoje, ela é a senhora que pode decidir minha vida ao mesmo tempo em que cativa minha libido. Now, I wanna be your dog! A música dos Stooges faz muito sentido hoje.

Ela volta dos fundos. Traz uma maçã verde na mão esquerda. Não olha pra ninguém. Senta e digita em seu micro. Minha testa ainda está úmida e os pelos de meus antebraços estão se arrepiando, devo estar febril. Um nó na garganta, o clima lá fora mudou, só agora me dei conta. Começou uma chuva de deixar qualquer desavisado todo ensopado. Até eu sair daqui tudo já deve estar seco lá fora, vai demorar um bocado, está no número… opa! 401! Tá quase! Nada como uma gostosa pra encher os olhos e fazer o tempo passar mais rápido. Era o exemplo mais autoexplicativo que Einstein tinha para sua teoria da relatividade, uma hora ao lado de uma gostosa parecem minutos. Tá chegando minha vez. Minha espinha até gelou por isso. Se tudo der errado, amanhã acordo cedo e enfrento uma fila de 2 quadras para uma vaga de coveiro, ou peço uma grana emprestada pro agiota da rua… meu número! E é ela quem vai me atender. Minha tensão é 220 volts! Vou curto-circuitar!

– Em que posso ser útil, senhor? Ela não me olha, parece mais interessada no que acontece na tela do computador. Balbucio uma resposta e entrego minha pasta com todos os papéis, ela folheia rapidamente sem me olhar e diz:

– Primeiro teremos de organizar isso tudo. Ela espalha os papeis pela mesa de vidro escuro, começa a pinçar aqui e ali aquilo que julga ser a ordem correta. Fico entre envergonhado pelo meu desleixo e tentado a dar uma explicação para acabar com o clima de antipatia no ar. Sem saber o que dizer, permaneço calado e espero que ela organize minha vida. Ela é meu juiz, júri e executor nesse momento. Cativo da sua beleza, confirmada agora de perto, não me incomodo de ser abatido como um cachorro, como Joseph K. Seria um belo fim. Sem falar que agora também sinto seu perfume, inebriante. Diferente de todo esse ambiente. Algo tropical, algo amazônico. Patchouli? Uma executiva amazônica define impiedosamente meu futuro, o mundo é um lugar cruel e, de vez em quando, belo. Serei sacrificado pela mão de uma versão feminina do capitalismo tardio. Nascido de uma mulher, morto por uma, nada mais justo.

– Isso aqui está errado, o senhor terá que refazer e retornar outro dia. Meu coração para de bater.

– Eu… não posso… você não entende, preciso sair daqui com tudo Ok, não posso voltar outro dia. Toda minha vida depende desses papéis. Por favor, não me faça retornar, não vai adiantar. Tem de ser agora ou não será! Eu imploro… Ela me fita diretamente nos olhos pela primeira vez, mas não me responde. Volta a teclar, o tempo se dilata de repente. Toda beleza dela não impede a suspensão do tempo, o mundo não gira mais. Todos os relógios pararam. Até a gota de suor frio que escorregava pela minha têmpora esquerda não flui mais. (Maldito ar condicionado). Mas… o pulso, ainda pulsa. Os velhos Titãs.

– Tudo bem, vou ver o que posso fazer por você mais tarde. Por favor, aguarde no banco de espera até o fim do expediente. Com o coração na mão e os cabelos da nuca arrepiados pelo olhar que ela me dirigiu, retorno obediente para o banco. Agora noto que há um aquário aqui, peixes dourados nadando lentamente de um lado para o outro. Um aquário numa agência, quem diria? Deve ser pra dar ideia de calmaria. Passar o dia aqui em silêncio, que seja! Há esperança no final do expediente. Os ponteiros do relógio não estão do meu lado, mas, a esperança é a última que morre… a paciência, a primeira. Ah, a impaciência também tem seus direitos! E felizes são os peixes (Titãs de novo!) Sem preocupações, quase sem memória. Mas, será que eles apreciam as pernas da funcionária? Veem ela todos os dias, com roupas diferentes. Talvez com saias mais curtas. Talvez até já tenham testemunhado ela descruzar as pernas e descoberto a cor da sua… se bem que não é difícil imaginar, tudo me leva a crer que ela só usa calcinhas pretas ou vermelhas. Com aquelas roupas, não acredito que use…

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Ela se levantou, foi até lá atrás. Sua silhueta se delineia suave e erótica com as cores do fim de tarde chuvoso. Ela está toda felina com aquela roupa justa, será que os irmãos Villas Boas saborearam as entranhas de uma amazona como essa quando se aventuravam nas profundezas da mata brasileira? Altiva, ela retorna e, antes de sentar, me lança um olhar de soslaio… São como dardos narcotizantes. Felizes são os peixes, nós só vivemos breves instantes de epifania entre tardes aflitas e manhãs aborrecidas. Acho que os clientes estão acabando, a agência parece quase deserta agora. (Vai ver é o ar condicionado). O tempo parece dar voltas como esses peixes estúpidos do aquário, nada para cá, nada para lá, nada pra cima, nada para baixo. Os vidros são fronteiras invisíveis e intransponíveis para eles. Se os tubarões fossem homens… ou mulheres! Ela está atendendo o último cliente. Minha hora tá pra chegar, cabeças podem rolar, cabeças podem sair ilesas. O cliente está indo embora. Ela continua lá em frente ao micro digitando algo. Não me dirige olhar algum. Devo esperar? Se ela levantar, eu levanto também. Corro até ela e… ela se levantou! É agora! Ela está vindo pra cá. Vem falar comigo. Meu estômago se contorceu de medo.

– Me acompanhe, por favor, vamos verificar sua assinatura nos arquivos da agência.

Sigo-a em direção aos fundos. Ela não diz mais nada, só caminha sem me olhar. Será que tenho alguma esperança ainda? Eu quero mais vida, pai. Tenho lembranças a registrar antes que elas desapareçam como lágrimas na chuva. Entramos numa sala. Está cheia de servidores em pleno funcionamento à direita, estamos conectados com o mundo inteiro. Do outro lado há gavetas de arquivos em papel, conexão com o passado… Deve ser aqui, ela parou… Impera um não tão breve silêncio. Então ela se vira e me diz:

– Feche a porta. Eu obedeço sem pensar. Ela diz:

– Agora ajoelhe-se.

– Mas… o que??

– Quieto. Quer resolver seu problema? Obedeça.

O que ela quer? Humilhação? Chantagem? Acho melhor ir embora. Ah, mas não posso… Minha vida tem que se resolver. Não faz mal se não sair vivo daqui. Que seja! Ajoelho-me de frente pra ela, então ela puxa um zíper na lateral da saia justa e a ergue, revelando seu quadril. Ela… ela está sem calcinha! A virilha dela está na altura do meu rosto. Pelinhos ruivos e ralos seguem em direção a seus lábios rosados. Hmmm. Curto vulvas peludas, nunca entendi a mania de depilação universal de virilhas. Uma boceta com pelinhos manifesta mais personalidade. Ela diz:

– Quero sua língua aqui agora! E puxa minha cabeça. Sinto o gosto dela… Seus lábios estão molhados, quentes e inchados. Ela me comprime ainda mais de encontro ao seu quadril.

– Humm… Só vai me provar com a língua. Assim… com a ponta dela. Isso! Aqui eu mando, você obedece. Delírio absoluto. Pesadelo transmutado em sonho erótico? Que mundo bizarro e imprevisível! Se eu contar, ninguém acreditará.

– Ahh, agora para um pouco. Ela se vira e se debruça sobre uma cadeira estofada. De costas pra mim, ela se abre e diz:

-Vem, meu querido. Vai, prova com tua língua quente e nervosa. Hmmm. Obediente você, é assim que eu gosto.

Tô sendo assediado por ela? Que mulher mais loucamente gostosa! Uma deusa do amor por baixo da sisuda executiva, senhora libidinosa que não usa calcinha. Como é tesuda essa Vênus mandona, essa Elektra assassina, essa Sonja urbana. Ela se contorce toda como uma ninja em combate! Abrindo-se como uma tangerina partida ao meio para minha língua tocar o ponto em que sua polpa é ainda mais suculenta. Onde seu sumo é mais saboroso. Sinto toda sua acidez feminina na ponta da língua. Que mundo bizarro!? Fui enlaçado por Diana, subjugado pela Gata Negra! Gostosa fim de tarde… A tecnocrata mais tesuda da história! Então, e de repente, ela treme das pernas à cabeça e solta um longo suspiro, seu corpo relaxa e ela fica toda mole, senta na cadeira por um instante, me olha. Eu… não, eu não… meu sexo ferve. Ela levanta, apruma a saia, ajusta os óculos no rosto levemente ruborizado e arruma seus cabelos ruivos.

– Levante! Acabamos. Obedeço me ergo e fico olhando pra ela.

– Vai, acabamos.

– Mas… e minha situação? Como fica?

– Já resolvi isso antes de sair da minha mesa, está tudo Ok, pode ir. E sai da sala.

 

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